O
DESEJO DE ENSINAR E
A ARTE DE APRENDER
Rubem
Alves
A escritora Adélia Prado me
ensina pedagogia. Diz ela: “Não quero faca nem queijo; quero
é fome”. O comer não começa com o queijo. O comer
começa na fome de comer queijo.
Se não tenho fome é
inútil ter queijo. Mas se tenho fome de queijo e não
tenho queijo, eu dou um jeito de
arranjar um queijo...
Há muita sabedoria
pedagógica nos ditos populares. Como naquele que diz: “É
fácil levar a égua até o meio do ribeirão.
O difícil é convencer
ela a beber a água...”. De fato: se a égua não estiver com sede,
ela não beberá água por mais que o seu dono a surre...
Mas, se estiver com sede, ela, por vontade própria, tomará a
iniciativa de ir até o ribeirão. Aplicado à educação: “É fácil
obrigar o aluno a ir à escola. O difícil é convencê-lo a aprender aquilo que ele não quer
aprender...”.
Toda experiência de
aprendizagem se inicia com uma experiência afetiva. É
a fome que põe em funcionamento o aparelho pensador. Fome
é afeto. O pensamento nasce do afeto, nasce da fome. Não confundir
afeto com beijinhos e carinhos. Afeto, do latim affetare, quer
dizer ir atrás. O “afeto” é o movimento da alma na busca do objeto de
sua fome. É o eros platônico, a fome que faz a alma voar em busca do
fruto sonhado.
Anote isso: o
pensamento é a ponte que o corpo constrói a fim de chegar ao objeto
do seu desejo.
se o desejo for
satisfeito, a máquina de pensar não pensa.
Assim, realizando-se o desejo, o pensamento não acontece. A maneira
mais fácil de abortar o pensamento é realizando o desejo. Esse é o
pecado de muitos pais e professores que
ensinam as respostas antes que
tivesse havido perguntas.
minha máquina de pensar
tratou de encontrar outra solução: “Construa uma maquineta
de roubar pitangas”. Marshall McLuhan nos ensinou que todos
os meios técnicos são extensões do corpo.
Bicicletas são
extensões das pernas, óculos são extensões dos olhos, facas são extensões das
unhas. Uma maquineta de roubar pitangas teria de ser uma
extensão do braço. Um braço comprido, com cerca de dois metros. Peguei
um pedaço de bambu. Mas um braço comprido de bambu sem uma mão
seria inútil: as pitangas cairiam. Achei uma lata de massa de
tomates vazia. Amarrei-a com um arame na ponta do bambu. E lhe fiz um
dente, que funcionasse como um dedo que segura. Feita a minha máquina,
apanhei todas as pitangas que quis e satisfiz meu desejo.
Anote isso: conhecimentos são extensões do corpo para a realização do desejo.
A cabeça não pensa aquilo que o coração não pede.
Anote isso: conhecimentos não nascidos do desejo
são como uma maravilhosa cozinha na casa de um
homem que sofre de anorexia.
Homem sem fome: o fogão nunca será aceso; o banquete nunca será
servido. Dizia Miguel de Unamuno: “Saber por saber: isso é
inumano...”. A tarefa do professor é a mesma da
cozinheira: antes de
dar faca e queijo ao aluno, provocar a fome... Se ele tiver fome,
mesmo que não haja queijo ele acabará por fazer uma maquineta de roubar
queijos. Toda tese acadêmica deveria ser isso: uma maquineta de roubar o objeto que se
deseja...
Nenhum comentário:
Postar um comentário